

Desde a periferia de Campinas até o topo do mundo, a trajetória de Aretha Duarte foi construída passo a passo, entre reciclagem de materiais, treinos intensos e a capacidade de mobilizar pessoas e marcas em torno de um propósito. Em 2021, ela cravou seu nome na história ao tornar-se a primeira mulher negra latino-americana a alcançar o topo do Everest; mas antes e depois dessa conquista, vieram cumes e travessias que aprimoraram sua técnica, sua visão de mundo e sua atuação como líder e empreendedora socioambiental.
“Cada montanha me ensinou uma lição diferente: às vezes é silêncio e paciência, às vezes é decisão e ritmo; o importante é lembrar que todos nós temos um Poder Interno Bruto para transformar sonho em execução”, conta Aretha. Com a proximidade do final do ano, ela revisita as principais montanhas que marcaram sua história como montanhista e guia de montanha, compartilha características e curiosidades de cada uma, e propõe um olhar especial para picos localizados nos países-sede da Copa do Mundo de 2026, uma ponte entre esporte, cultura, inovação e geografia.
Monte Everest (8.848 m) — Nepal: A montanha mais alta do planeta sintetiza a combinação de preparo técnico, estratégia e gestão de risco que orientam a carreira de Aretha. Em 23 de maio de 2021, após semanas de aclimatação e janelas de tempo minuciosamente calculadas, ela alcançou o cume pelo lado nepalês, enfrentando frio extremo, rarefação de oxigênio e longas horas acima de oito mil metros. Mais do que um feito esportivo, a ascensão coroou um projeto que começou muito antes do Himalaia e envolveu financiamento via reciclagem, engajamento de patrocinadores e uma rede solidária. De acordo com a montanhista, o Everest ensina sobre propósito e é ele que dita o ritmo, a motivação. “Chegar ao cume do Everest foi mais do que alcançar o pico da montanha mais alta do mundo, O cume do Everest foi mais do que a chegada ao ponto mais alto do planeta, mas um manifesto sobre acesso, representatividade e sustentabilidade”, afirma Aretha. A temporada de escalada segue de março a maio, primavera no hemisfério norte.
Aconcágua (6.962 m) — Argentina: O guardião dos Andes é, para Aretha, uma escola de alta montanha. Ao longo de cinco investidas, ela vivenciou a variabilidade intensa do clima (árido e hostil), os ventos fortes e as exigências de logística e aclimatação que fazem do Aconcágua um desafio subestimado por quem o chama de ‘não técnico’. Essa montanha ajudou a aprimorar sua leitura de terreno, seu julgamento de risco e a resiliência que ela leva hoje ao palco corporativo. “Essa montanha me ensinou sobre resiliência, resistência de força e também sobre o que é essencial na vida, ser minimalista, com um pouco de comida, ar, abrigo e relacionamentos saudáveis”, conta Aretha. A temporada acontece no verão, de meados de novembro a meados de fevereiro.
Monte Kilimanjaro (5.895 m) — Tanzânia: O ponto mais alto da África impõe um ganho de altitude rápido desde savanas até um topo glaciado, com zonas ecológicas que mudam à medida que o relevo sobe. Aretha liderou a “Expedição Sankofa” ao Kilimanjaro, reunindo brasileiros negros em uma experiência de pertencimento. Para ela, foi também um capítulo de liderança feminina no ambiente de altitude. “Ver pessoas que antes não se viam nesses lugares chegarem ao topo da África foi uma vitória coletiva. O Kili também me ensinou sobre a importância da diversidade para o processo de criatividade e inovação, além de quão importante é o trabalho em equipe para o alcance do objetivo”. A temporada de escalada segue de janeiro a dezembro – o ano todo.

Aretha Duarte durante expedição à Cordilheira Real, na Bolívia
Monte Elbrus (5.642 m) — Rússia: O cume mais alto da Europa, no Cáucaso, é um vulcão de dois cones que combina grandes campos de gelo com mudanças bruscas de tempo. Na ascensão, Aretha encarou variações térmicas intensas, trechos de muito vento num frio intenso. A experiência no Elbrus consolidou seu repertório em deslocamento em glaciar e gestão de energia em longas janelas de ataque ao cume. Para ela, a montanha ensina a “respeitar o relógio da natureza e a negociar com o vento”, além de capacidade de adaptação, resistência ao frio e lidar com a mudança. A temporada principal de escalada no Monte Elbrus ocorre no verão, de maio a setembro, sendo junho, julho e agosto.
Alpamayo, Huisalla, Acotango, Parinacota e Sajama, Bolívia: Em 2022, Aretha retornou à Bolívia e conquistou os cumes de Huisalla, Acotango, Parinacota e Sajama, este último como parte do projeto Cielos de los Andes, que busca alcançar a montanha mais alta de cada um dos sete países andinos. Em 2023 liderou uma expedição 100% feminina à Cordilheira Real, na Bolívia, uma das formações mais impressionantes dos Andes, conhecida como o “Himalaia da América do Sul” pela grandiosidade de suas montanhas e pela beleza de suas geleiras eternas. Com picos que ultrapassam os 6.000 metros, a região combina desafios técnicos e visuais deslumbrantes; suas paisagens misturam neve, rocha e a cultura andina viva de vilarejos que mantêm tradições ancestrais aos pés das montanhas. Para Aretha, as lições dessas experiências foram sororidade, compaixão, intuição e as forças do feminino. A temporada de escalada ocorre principalmente durante a estação seca, que vai de maio a outubro.
Campo Base do Everest — Nepal: Mais do que um marco geográfico a 5.364 metros, o Campo Base do Everest é um ambiente vivo, com rotinas de aclimatação, escolas de gelo e cultura sherpa. Aretha esteve no Campo Base em diferentes momentos de sua carreira, aprendendo na prática sobre segurança, convivendo com operações de rota e aperfeiçoando sua preparação para alta montanha. A experiência transformou sua visão sobre gestão de risco, colaboração em ambientes extremos, empatia, escuta ativa, acolhimento. O início da temporada de escalada no Campo Base do Everest geralmente ocorre na primavera (março a maio), quando alpinistas se preparam para o cume, e no outono (setembro a novembro), após as monções, oferecendo céus limpos e condições ideais para trekking
Monte Roraima (2.810 m) — Brasil/Venezuela/Guiana: Na tríplice fronteira, o Roraima é considerado o tepui (monte em formato de mesa) mais alto do mundo. É um ambiente mais tropical que glacial, com paredes verticais e topo plano, que abriga uma rica diversidade de flora e fauna. Para Aretha, escalar o Monte Roraima foi um desafio diferente que a ensinou a ouvir o ritmo do lugar. “Aqui a técnica é menos gelo e mais respeito à água, ao tempo da floresta e à história que a montanha guarda. A grande lição dessa montanha é a força da inteligência espiritual”. A temporada de escalada e trekking no Monte Roraima ocorre principalmente durante a estação seca, que vai de outubro a março.
Montanhas nos países-sede da Copa do Mundo de 2026
Com a proximidade da Copa do Mundo de 2026, que será realizada no México, no Canadá e nos Estados Unidos, Aretha aproveita para destacar montanhas que costumam estar na lista dos montanhistas do mundo todo como desafios a serem vencidos.
Denali (6.190 m) – Estados Unidos: No coração do Alasca, o Denali é a montanha mais alta da América do Norte e um dos ambientes mais severos do montanhismo mundial. Com aproximação em glaciar, autossuficiência elevada e clima imprevisível, o cume combina técnica, logística e resistência. Aretha destaca o Denali como uma montanha de natureza bruta e parques nacionais, e como referência de planejamento para expedições em frio extremo. A temporada principal de escalada ocorre do final de maio até meados de julho.
Monte Logan (5.959 m) – Canadá: No território de Yukon, o Logan é um maciço vasto, com platôs extensos e gelo profundo. Para Aretha, o Logan traduz o Canadá em escala geográfica e respeito a áreas protegidas: uma engenharia de paciência, navegação e leitura de tempo. É um destino que fascina montanhistas do mundo todo pela grandiosidade e pelo desafio de permanecer forte em janelas longas. A temporada de escalada do Monte Logan ocorre, geralmente, de meados de abril ao final de junho.
Pico de Orizaba, ou Citlaltépetl (5.636 m) – México: O ponto mais alto do México é um vulcão majestoso cujo cone perfeito domina a paisagem. Com aproximação relativamente acessível e um ataque ao cume que exige ritmo, aclimatação e domínio de progressão em neve, o Orizaba oferece uma combinação atrativa para quem busca altitude, cultura e beleza. Aretha o coloca como porta de entrada para muitos latino-americanos que sonham com seus primeiros cinco mil metros de altitude. “É um cume bastante escolhido por quem está começando e que inspira a dar o próximo passo”. A temporada de escalada ocorre durante a estação seca do México, com o auge da temporada entre dezembro e abril.
Sobre Aretha Duarte
Conhecida como a primeira mulher negra latino-americana a escalar o Everest, Aretha Duarte, que nasceu na periferia de Campinas-SP, recolheu cerca de 130 toneladas de materiais recicláveis para custear a expedição, transformando sua jornada em símbolo de resiliência, propósito e impacto social. Formada em Educação Física, atualmente, além das expedições em grupos, Aretha também ministra palestras corporativas, abordando temáticas como impacto social para as empresas, sustentabilidade na prática, liderança com propósito e engajamento em ações como a SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho) de forma humana e inspiradora. Aretha é embaixadora da Veolia Brasil, da The North Face Brasil, e dos projetos Favela Radical, Outward Bound Brasil e Pés Livres – com mulheres e crianças na Tanzânia. Ela também atua ativamente em campanhas publicitárias e com produção de conteúdo. Saiba mais: instagram.com/aretha_duarte | linkedin.com/company/aretha-duarte