

Ele vibra. Pisca. Notifica. E, em segundos, rouba a atenção de quem deveria estar aprendendo. O celular se tornou um dos maiores desafios para educadores brasileiros. E a discussão, que parecia restrita ao ensino de base, chegou com força aos ambientes acadêmicos.
A pedagoga e especialista em educação Maria Malerba defende a restrição total, ampliando as regras também no ambiente acadêmico. Para ela, mesmo ações aparentemente inofensivas como fotografar um slide, fazer uma busca rápida no Google ou recorrer ao ChatGPT escondem um custo cognitivo real. “O esforço que o aluno faz ao usar essas ferramentas é menor”, explica. “E isso gera menos ganho em memória e em aprendizagem como um todo.”
Proibir ou limitar
O modelo que a pedagoga defende é claro: restrição total durante o horário de aula, não apenas em sala, mas também nos corredores e no intervalo.
“Vejo hoje adolescentes que socializam cada vez menos, que interagem quase nada e têm menor capacidade de autorregulação emocional”, afirma Maria.
Para ela, é inegável o papel do celular nesse processo de esvaziamento das relações sociais.
A especialista é direta: sem a retirada do aparelho, é quase impossível manter a atenção dos alunos. “É preciso ser praticamente alguém teatral à frente da sala para chamar mais atenção do que uma mensagem do paquera ou um comentário nas redes sociais.”
Aulas mais dinâmicas ajudam. Vivências práticas também. Mas Maria reconhece os limites: quando o aluno quer escapar, o celular está sempre ali como válvula.
O custo real para o desempenho acadêmico
O prejuízo, segundo a pedagoga, já é visível e mensurável. Não é uma ameaça futura, é uma realidade presente. “Vemos alunos com muito menos poder de concentração, com mais desafios de modulação emocional, sem saber lidar com problemas e sem saber como sair da zona de conforto”, descreve.
Ela ressalta um ponto que muitos ignoram: a maioria dos alunos universitários tem menos de 21 anos. São jovens que ainda estão finalizando seu desenvolvimento cognitivo. A exposição excessiva às telas, portanto, não é problema apenas da infância.
A solução, para Maria Malerba, vai além de proibir. É preciso educar. Ela defende que as faculdades incluam no currículo discussões abertas sobre o impacto das telas no desenvolvimento humano.
“Aulas sobre ética, sobre filosofia e sobre o humano são cada vez mais necessárias para nossos jovens em âmbito acadêmico.”
Brasil debate regras para inteligência artificial nas escolas
Enquanto o tema sobre o celular avança, o Brasil trata de enfrentar outro desafio tecnológico nas salas de aula: a inteligência artificial.
O Conselho Nacional de Educação (CNE) programou para o dia 16 de março a votação de um parecer que estabelece as primeiras diretrizes nacionais para o uso de IA na educação básica e no ensino superior.
O documento é fruto de um ano e meio de debates entre governo federal, UNESCO e especialistas do setor.
Entre os pontos centrais da proposta: o uso pedagógico da IA deve estar vinculado a objetivos educacionais explícitos, sempre sob supervisão de profissionais de educação. A automação plena de atividades pedagógicas fica proibida.
Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil revelam que sete em cada dez estudantes do ensino médio que usam a internet já recorreram a ferramentas de IA generativa para pesquisas escolares. Porém, apenas 32% afirmam ter recebido orientação nas escolas sobre como usá-las.
Enquanto isso vemos alunos e educadores não tendo consciência de uma forma mais aprofundada, não só de como usar essas ferramentas em âmbitos educacionais, com seus limites éticos e de aprendizagem, mas também sem uma base palpável de seu impacto a médio e longo prazo quando falamos de prejuízos na aprendizagem e desenvolvimento cognitivo dos educandos.